Publicidade
Opinião Opinião

Volta do Gauchão é goleada contra o bom senso

Por Alexandre Aguiar
Última atualização: 09.07.2020 às 22:13

Seu João, 72 anos, experiente barbeiro, tem um pequeno negócio para sobreviver, afinal o que recebe de aposentadoria do INSS não é suficiente para sua subsistência. Mesmo sendo do grupo de risco pela idade, não fechou a pequena barbearia em Porto Alegre. Toma todos os cuidados recomendados e por trabalhar sozinho atende um dos seus fiéis clientes por vez. Quem espera ser atendido, tem que aguardar no lado de fora.

Devido ao galopante número de casos e de internações em UTI desde o mês de junho, o pobre do Seu João teve que fechar as portas. Seu João não gosta de desafiar as regras do poder público. É respeitador das leis. Um cidadão exemplar. Seu João também é uma pessoa consciente. Experiente, já viveu momentos muito difíceis ao longo da vida e até passou por algumas pandemias passadas, não como esta, mas aprendeu com a vida que não se desafia o que não pode ser desafiado. Temente a Deus e ao vírus, somente saía de casa para trabalhar ou comprar comida ou seus muitos remédios. Nada mais.

Eu não conheço o Seu João. O narrado é uma figura argumentativa. Agora, tenho muita convicção que ele existe. Que existem muitos outros na mesma situação em que devido à epidemia estão fazendo enormes sacrifícios pessoais e econômicos, inclusive indo à ruína em seus negócios, simplesmente por observarem as necessárias e corretas ações de combate à pandemia.

Se eu não conheço o Seu João, conheço pela mídia quase todos os jogadores e técnicos de Grêmio e Internacional assim como dos principais times do interior. Seu João terá que seguir com sua barbearia fechada, mas as estrelas do esporte poderão disputar o tão relevante e indispensável Campeonato Gaúcho a partir do dia 23 de julho, por decisão do governador Eduardo Leite.

A barbearia seguirá fechada, afinal os números não param de piorar. No mesmo dia em que se anuncia oficialmente a volta do futebol no Rio Grande do Sul, o Estado tem o seu pior dia desde o começo da epidemia com 45 mortes e 877 novos casos confirmados em 24 horas. Já são 870 gaúchos mortos pelo maldito vírus. Mais de três tragédias da boate Kiss desde o mês de março. São quase 70 mil mortos no País. O futebol, contudo, vai voltar. O pão e o circo não podem parar, mesmo com a curva ascendente de infectados, doentes internados e mortos no Rio Grande do Sul.

Não se discute que o futebol emprega, que o futebol tem importante componente social, que o futebol movimenta a economia e que o futebol tem efeito de aliviar o estresse das pessoas, ainda mais em um momento de reclusão forçada em que sequer se pode correr ou caminhar em alguns parques da Capital porque fechados preventivamente.

Não se pode ignorar, entretanto, que a volta do futebol se dá em um momento em que o desafio é manter as pessoas em casa o máximo possível – e esse era o apelo emocionado do ocupante do Piratini em vídeo dias atrás que levou este colunista a recomendar que se ouvisse o governador. Não se pode olvidar que o retorno do futebol tem um efeito de simbolismo e de imagem para a sociedade.

Se tem futebol, que o próprio governador disse que não era prioridade, por que o Seu João que necessita do seu negócio para sobreviver precisa seguir com a sua pacata barbearia fechada mesmo observando todos os protocolos recomendados pelas autoridades? O retorno do Gauchão força uma ideia e imagem de normalidade que não existe, e isso é sabotar todos os esforços de conscientização. Seu João terá portas fechadas, mas por força de lobbies poderosos e da frouxidão de agentes públicos terá como se distrair da sua agonia financeira vendo um importantíssimo jogo de futebol pela televisão e torcendo para o seu time.

Existe vida sem futebol, mas não existe futebol sem vidas. Neste patético e repugnante recomeço do futebol que se anuncia, o triunfo da ganância sobre a saúde, o toque inicial da partida deveria ser justamente do governador Leite. Nada mais justo que deixar sua marca em campo, afinal foi o protagonista da goleada contra o bom senso.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.