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Notícias | Região ELEIÇÕES 2022

Eleitor gaúcho busca alinhamento nacional na escolha do candidato ao Piratini

Pesquisa aponta o comportamento do eleitorado do RS e sugere gaúcho mais preocupado com a briga entre Lula e Bolsonaro do que com a disputa local

Por Eduardo Amaral
Publicado em: 25.06.2022 às 06:00 Última atualização: 26.06.2022 às 16:46

Faltando menos de 100 dias para a votação do primeiro turno, o eleitor gaúcho está mais interessado na disputa pelo Palácio do Planalto do que de olho nos pré-candidatos ao Piratini. É o que aponta recente pesquisa realizada pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), que demonstra ainda um interesse baixo do eleitorado pelo pleito que será disputado no dia 2 de outubro.

No dia 2 de outubro, brasileiros vão às urnas para eleição de primeiro turno
No dia 2 de outubro, brasileiros vão às urnas para eleição de primeiro turno Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

Diretora do IPO e cientista social e política, Elis Radmann diz que esse cenário é novidade no Estado. “Está acontecendo um fenômeno que é o alinhamento do eleitor gaúcho com a eleição nacional, algo inédito na história das eleições desde a redemocratização”, diz Elis, explicando que difere da campanha que elegeu Tarso Genro (PT) em 2010, quando o petista baseou seu marketing político no “alinhamento das estrelas”, em referência aos governos petistas nacionais. Desta vez, este alinhamento com as pautas nacionais acontece de forma mais natural, puxado por uma sociedade atenta à disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

Em 2022, o eleitor gaúcho está mais ideológico do que em anos anteriores, explica Elis, mas isso não significa que ele esteja mais informado ou preocupado com ideias de esquerda ou direita. “Ele (eleitor) está aderindo a uma bandeira, bolsonarista ou lulista”, explica, deixando claro que a dita polarização se concentra nas duas figuras extremamente populares que representam os campos de centro-esquerda e extrema direita. “A gente apresenta o disco de votação e eles perguntam quem é o candidato de Lula e quem é de Bolsonaro no Estado.”

Interesse em crescimento

A pesquisa sobre o comportamento do eleitor apresenta outros dados importantes para entender o envolvimento do gaúcho com o pleito. Além de um movimento único no qual a disputa local fica de lado em relação a anos anteriores, o instituto mostra que 52,8% dos eleitores do Estado dizem estar interessados na disputa eleitoral, mas olhando para a competição nacional. O desinteresse ainda é grande, alcançando a casa de 47,2%, mas com a proximidade das eleições ele deve reduzir gradativamente, apontam os especialistas. 

Pessoas mais escolarizadas e com maior renda são hoje as mais atentas às eleições, enquanto os mais pobres e com menos escolarização estão “mais preocupadas em resolver os problemas do dia a dia”, segundo Elis, mas veem na eleição presidencial a resolução para os problemas.

No dia 20 de julho começa o prazo legal para realização de convenções partidárias, para definição dos representantes nas disputas majoritárias (governador, senador e presidência) e ao legislativo (deputados estaduais e federais). O prazo se encerra no dia 5 de agosto, e o último dia para registro de candidaturas se encerra no dia 15 de agosto, e a partir do dia seguinte a campanha começa oficialmente. Serão então 45 dias com os candidatos apresentando propostas e pedindo votos, um período considerado curto pelo vice-presidente do Instituto Gaúcho de Direito Eleitoral (Igade), o advogado eleitoralista Roger Fischer.

“Acho que isso (período de campanha) acaba prejudicando o próprio eleitor, porque tem menos tempo para conhecer os candidatos. Quanto mais campanha, melhor para o eleitor”, afirma o especialista, contrariando a máxima adotada em 2015, quando a Câmara dos Deputados aprovou uma minirreforma eleitoral que, de acordo com a justificativa da época tinha por objetivo reduzir os custos de campanha, o que Fischer diz que não aconteceu, embora reconheça que hoje a Justiça Eleitoral é mais eficiente para combater a prática de caixa 2.

A figura do pré-candidato

Essa minirreforma, aprovada pelo Congresso e colocada em prática pelo TSE, trouxe à tona a figura do pré-candidato, que é onde se encaixam todos os postulantes a cargos eletivos neste momento. A lei eleitoral proíbe que eles peçam votos, mas os mesmos já podem arrecadar fundos eleitorais através de vaquinhas virtuais, dinheiro que deve ser depositado em uma conta que fica bloqueada e só será liberada quando o período de campanha iniciar.

Fischer destaca que os pré-candidatos precisam ficar atentos neste ponto, pois os mesmos podem sofrer sanções e inclusive levar a cassação de mandatos. “Já tivemos senadores que perderam o mandato por abuso de poder econômico em período de pré-campanha”, relata.

Muro é posição perigosa

O protagonismo das lideranças nacionais traz uma dificuldade para o autodenominado “centro”, que, ao não querer adotar a candidatura de nenhum dos dois, pode mais perder do que ganhar votos. Elis avalia que as candidaturas que tentam renegar Bolsonaro e Lula terão na verdade dificuldades imensas em chegar a um segundo turno. Segundo ela, hoje, candidaturas como do ex-governador Eduardo Leite (PSDB), que busca a reeleição, e de Gabriel Souza (MDB), precisam tirar votos, quase consolidados, de Onyx Lorenzoni (PL), líder nas pesquisas até o momento. “Eles vão disputar uma agenda que não está em debate agora que é a da continuidade. O gaúcho quer debater quem será o candidato da polarização”, diz Elis ao comentar as candidaturas de Souza e Leite, dois que se colocam como apoiadores de Simone Tebet (MDB) à presidência. A candidata, até o momento, não passou de 2% nas pesquisas de intenção de votos nacionais enquanto Lula e Bolsonaro se cristalizam a cada novo levantamento como os protagonistas do pleito.

Elis avalia que o próprio Leite contribuiu para esta dificuldade local, já que suas tentativas fracassadas de candidatura presidencial, aliado com o fato de ele não ter pautado o tema da continuidade apresentando à sociedade um sucessor, contribuiu para enfraquecimento da própria candidatura. “Hoje o Eduardo Leite não está no segundo turno. Ele foi criando um grande problema para si, ao sair da agenda da continuidade”, avalia.

Neste contexto, crescem as candidaturas de direita e de esquerda, fortalecendo, no momento, os nomes de Edegar Pretto (PT) e Beto Albuquerque (PSB) na disputa com Onyx Lorenzoni e Luis Carlos Heinze (PP). Como o voto de esquerda está mais consolidado, o desafio de Leite e Gabriel é, segundo avaliação de Elis, tirar votos de Onyx para se garantir no segundo turno, já que PSB e PT indicam união no primeiro turno, repetindo no Estado a dobradinha nacional, que tem Lula na cabeça de chapa e Geraldo Alckmin (PSB) como vice. Além disso, os eleitores de esquerda terão neste primeiro turno um candidato seu, diferente do que aconteceu no segundo turno de 2018, quando Leite conseguiu angariar votos no campo da esquerda. Mas no Rio Grande do Sul, a disputa é para saber qual dos dois será o cabeça de chapa, tema que tem dificultado as negociações entre as legendas em busca de uma chapa unificada.

Como o eleitor vê os postulantes ao Piratini

No caso do Rio Grande do Sul, os pré-candidatos ao Piratini já começam a construir uma imagem na cabeça do eleitor. De acordo com Elis, a pesquisa do IPO apontou que Onyx é visto como o mais competente e preparado, muito em razão da sua atuação no Ministério da Cidadania no momento da aprovação do auxílio-emergencial em meio à pandemia. Elis traça um paralelo com o petista Tarso Genro, pois assim como o antagonista ideológico, Onyx também é visto como uma pessoa arrogante, mas que para os bolsonaristas recebe o voto pela competência.

Heinze tem perdido espaço por um cálculo estratégico do eleitor mais ideologizado com o bolsonarismo, o qual entende que votar em Onyx é ganhar o governo do Estado e ainda manter o político visto como “o homem do agronegócio” no Senado.

Leite por sua vez precisa reconstruir a boa imagem que o levou ao Piratini em 2018. “Leite era visto como o político ideal e conseguiu construir uma imagem positiva sobre si, que o manteve protegido. Quem está machucando a imagem dele é ele mesmo”, afirma Elis. Já Gabriel Souza é visto justamente como novo Leite, o político ideal que, no momento se encontra em um espectro pouco votado já que os gaúchos têm buscado essa "associação personalística desses nomes (Lula e Bolsonaro)”, afirma Elis.

É olhando esse cenário atual que Elis afirma que “a esquerda está no segundo turno”, já que Leite e Souza não terão como captar os votos de esquerda, que agora tem um candidato, e precisará retirar votos de Onyx ou Heinze. O problema é quem será esse candidato da centro-esquerda. Tanto o petista Edegar Pretto quanto o socialista Beto Albuquerque são bem avaliados pelo eleitor. “As pessoas gostam muito do Edegar, ele tem uma boa retórica. Todos os testes qualitativos mostram que ele é um dos melhores nomes do PT. O Beto também é visto como bom moço e bom gestor, esse um atributo que o Pretto precisa construir.”

Mesmo com tantas indefinições, o eleitor gaúcho vê na eleição um momento de melhoria de vida, mas olhando para Brasília. A pesquisa do IPO apontou 51,5% dos gaúchos acreditam que a eleição fará a vida ficar melhor, os lulistas pela mudança de governo nacional, e os bolsonaristas apostando na continuidade do governo. Uma grande parcela, 43,4%, foi classificada como esperançosa quanto ao processo eleitoral, agora restam as disputas eleitorais até o voto na urna, em menos de 100 dias.

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