Publicidade
Botão de Assistente virtual
Notícias | Região OUÇA ÁUDIO

'Não tenho mais nada a perder', disse ex-companheiro antes de matar cabeleireira

Corpo de moradora de Estância Velha foi encontrado de forma insólita na noite de quarta-feira (12), no sul de Santa Catarina, e caminhoneiro é procurado por feminicídio

Por Silvio Milani
Publicado em: 13.01.2022 às 22:11 Última atualização: 03.06.2022 às 07:43

Agressões, prisão, soltura, ameaças, descumprimento de medida protetiva, feminicídio na casa da vítima e o corpo dela encontrado no porta-malas do próprio carro, a 300 quilômetros de distância, na noite de quarta-feira (12). As últimas três semanas foram uma sucessão de violências contra a cabeleireira de Estância Velha Lourdes Clenir de Oliveira Melo, 48 anos, assassinada a facadas pelo ex-companheiro, o caminhoneiro Léu Vieira de Moura, 55, que está foragido.

Uma das intimidações, gravada pela mulher no período, dava o tom do que estava por vir: “Não tenho mais nada a perder. O que eu tinha pra perder era tu, sabia?” E continuou: “a gente vai morrer abraçado”

Após mais de dois dias abandonado, corpo foi encontrado no porta-malas do Corsa da vítima
Após mais de dois dias abandonado, corpo foi encontrado no porta-malas do Corsa da vítima Foto: PM de Santa Catarina

O áudio, enviado pela vítima a um sobrinho como pedido de socorro, foi gravado no dia 23 do mês passado na casa dela. Léu estava descumprindo novamente a Medida Protetiva de Urgência (MPU), decretada três dias antes no fórum de Estância. Por medo, segundo familiares, a cabeleireira tinha parado de denunciar o ex.

Às 13 horas do dia 19 de dezembro ele tinha sido detido por invadir a casa de Lourdes, no bairro Rincão dos Ilhéus, agredi-la e roubar objetos. A prisão em flagrante não foi homologada pela juíza Larissa de Moraes Morais e o homem acabou solto. Na mesma decisão, ela concedeu Medida Protetiva de Urgência à vítima. Na tarde desta quinta (13), em nota enviada via Assessoria de Imprensa do Tribunal de Justiça a partir de solicitação do Jornal NH, a magistrada esclareceu que, pelos relatos recebidos, não se configurava prisão em flagrante.


A alarmante discussão

Na conversa gravada pela vítima há três semanas, o ex-companheiro insistia para ela retirar uma acusação de estupro contra ele.Léu – Juro por Deus, vamos morrer abraçados. Ou tu te some daí ou tu vai me matar antes.
Lourdes – Eu não vou matar ninguém. Eu tenho minha vida toda pela frente.
Léu – Tu manda me matar ou pensa bem pra falar de estupro, botar as coisas como estupro. Vou devolver tuas coisas, teus óculos. Não vou ter todo dinheiro hoje, mas vou devolver semana que vem. Tá bom assim?
Lourdes - Semana que vem.. (inaudível)
Léu - Hoje vou devolver a televisão, teu óculos e teu dinheiro. Até o ventilador, que nem estou usando mesmo. Já estraguei minha vida. Só não estraga mais. Vou responder pelo que tem ali, mas se tu falar em estupro, tu pode sumir daí. Ou pega segurança, ou vai me matar. Vou morrer aí contigo. Pode ter certeza, vamos morrer juntos. Vou mostrar que não sou ‘bunda mol’.
Lourdes – Só que daí tu não vai mostrar nada, porque nós vamos estar mortos.
Léu – Então tá. Pronto. Eu não tenho mais nada a perder. O que eu tinha pra perder era tu, sabia?
Lourdes – Agora pensa em mim, depois de tudo que fez.

 

Cadáver só foi descoberto na hora de guinchar carro


O corpo da cabeleireira foi descoberto de forma insólita, por volta das 21 horas de quarta, quando o carro dela, um Corsa preto, era guinchado quase à margem da BR-101, em Içara. O serviço foi interrompido no momento em que o porta-malas se abriu e uma perna acabou sendo projetada para fora. “Foi assustador”, relatou uma catarinense moradora do bairro Barracão.

“É horrível. A Polícia veio pra guinchar e tem o corpo de uma mulher no porta-malas”, descreveu outro morador. O Corsa com placas de Estância Velha estava abandonado desde a tarde de segunda-feira (10), quase na frente de uma casa. A Polícia Militar foi chamada pela vizinhança, porque o alarme disparou, e acionou o guincho. Com a descoberta do corpo, a perícia foi acionada. A confirmação da identidade veio no fim da noite.

Câmeras flagraram abandono e fuga


Câmeras de segurança flagraram Léu abandonando o Corsa. Parecia transtornado. Caminhava ao redor do carro, segurando uma espécie de mochila, e às vezes olhava na direção do porta-malas. Um motoqueiro chegou a parar e conversar com ele por 30 segundos. Ficou dois minutos no local até sair caminhando em direção à BR-101 e sair do alcance das câmeras.

Segundo o delegado de Estância Velha, Rafael Sauthier, ainda não é possível apontar se o condutor da moto parou por acaso ou se tem envolvimento com o procurado. Também inviável especificar, no momento, se há troca de objeto entre eles, como sugerem as imagens. “O vídeo é inespecífico”, observa Sauthier. Os policiais apuram com que tipo de transporte e para onde Léu foi embora.

 

Para delegado, foi premeditado

O delegado considera que Léu foi à casa da vítima já determinado a matá-la e seguir com o corpo ao Estado vizinho. Mesmo que não tenha o horário exato do abandono do corpo, há um encaixe no desenrolar dos fatos. “Tudo indica que ele cometeu o crime e seguiu direto para Santa Catarina.” A hipótese inicial de feminicídio, porque o ex não aceitava o fim do relacionamento, segundo Sauthier, está confirmada.

Conforme revelado pelo Jornal NH, moradores do Rincão dos Ilhéus ouviram gritos na casa da vítima e depois avistaram o ex-companheiro colocando algo no porta-malas do Corsa, que seria o corpo dela, pouco antes das 10 horas de segunda Manchas de sangue ficaram no pátio. A ocorrência do desaparecimento foi registrada no mesmo dia, no fim da tarde, por uma sobrinha. A casa estava aberta. O WhatsApp da moradora continuava ativo, mas não respondia.

 

"Vivo ou morto"

Ofertas de recompensa pelo foragido, “vivo ou morto”, começaram a circular pelas redes sociais
Ofertas de recompensa pelo foragido, “vivo ou morto”, começaram a circular pelas redes sociais Foto: Reprodução
Embora tenha deixado o tráfico para trás e estivesse priorizando a vida profissional e a igreja pentecostal que frequentava, conforme a própria Polícia, a morte mexeu com o submundo do crime. A vítima era parente de chefe de quadrilha. Ofertas de recompensa pelo foragido, “vivo ou morto”, começaram a circular pelas redes sociais. A origem seria de uma facção.

Léu tinha vários antecedentes por roubo e tráfico internacional de drogas. Como caminhoneiro, era acusado de fazer transporte para quadrilha por Foz do Iguaçu. Estava solto há um ano. Já Lourdes, conhecida como Nezinha no passado, tinha cumprido duas condenações por tráfico, em Ivoti e Estância Velha, e agora investia no projeto de abrir salão de beleza em casa, além de fazer cortes e serviços de manicure a domicílio. Também trabalhava na faxina de uma creche perto de casa. Deixa duas filhas e um filho de outro relacionamento, na faixa dos 20 aos 30 anos, que moram em Santa Catarina. “Ela sofreu muito na cadeia. Não queria mais essa vida e estava trabalhando muito. Por isso não queria mais saber do Léu”, relata o sobrinho Lucas Melo, 29.

 

Juíza faz relato

A partir de solicitação do Jornal NH por meio da Assessoria de Imprensa do Tribunal de Justiça, a juíza Larissa de Moraes Morais emitiu comunicado por e-mail, ontem à tarde, via assessoria, com relato sobre os desdobramentos da detenção de Léu na tarde de 19 de dezembro. “Segundo noticiado no expediente, os agentes foram acionados para uma ocorrência de Maria da Penha, tendo a vítima informado que seu ex-companheiro, durante toda a tarde, estaria lhe ligando por WhatsApp e fazendo ameaças de morte caso não voltasse para casa.”

Segundo ela, os brigadianos foram ao local. “Constataram o casal conversando sobre a divisão de bens, não se verificando a ocorrência de situação que ensejasse a configuração flagrante desses delitos. Não obstante, na mesma decisão, foram concedidas medidas protetivas em favor da vítima de proibição de aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas a menos de 100 metros de distância; proibição de contato com a ofendida por qualquer meio de comunicação e afastamento do lar do agressor, e, por consequência, o acusado foi liberado. Ressalto que, embora não homologado o flagrante, dada a situação de violência doméstica, foram aplicadas medidas cautelares para que Léu se não se aproximasse da ofendida, não mantivesse contato, bem como o seu afastamento do lar comum, nos termos do art. 22 da Lei Maria da Penha.”

E prossegue: "Por fim, ressalto que, neste processo, como não houve notícia de descumprimento das medidas cautelares fixadas em favor da vítima, não houve pedido de prisão preventiva formulado pela Autoridade Policial ou Ministério Público".

A magistrada ainda detalha outras medidas protetivas em favor de Lourdes, em 15 de novembro de 2020, válidas por 90 dias, ressalvada a possibilidade de renovação a pedido da vítima. “Nesta ocasião, houve o afastamento de Léu da residência e, sem pedido de renovação, o expediente foi baixado decorrido o prazo de vigência.” Segundo ela, o procedimento originou inquérito policial e denúncia recebida no último dia 16 de novembro, por violência doméstica, com primeira audiência a ser marcada.

Informação repassada via Assessoria de Imprensa do TJ acrescenta que, a pedido da Polícia, o juiz da 1ª Vara Judicial de Estância Velha, Carlos Fernando Noschang, decretou a prisão preventiva na terça-feira (11) “por haver indícios de feminicídio”.

Outra nota da Assessoria de Imprensa do TJ frisa que "a vítima não comunicou às autoridades o descumprimento de medida protetiva, razão pela qual não havia pedido de prisão preventiva para o agressor". "Consideramos importante tal esclarecimento para que as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar saibam que as medidas protetivas podem salvar suas vidas mas que, caso sejam descumpridas, elas devem procurar os órgãos competentes para que eles saibam o que está acontecendo", acrescenta a nota.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.