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Notícias | Região Pequenos de dieta

Pandemia x obesidade infantil: especialistas alertam para o perigo do ganho de peso

Efeito na balança tem relação direta com a mudança de hábitos das crianças provocada pelo coronavírus

Por Débora Ertel
Publicado em: 19.06.2021 às 03:00 Última atualização: 19.06.2021 às 13:10

A família de Rafael Bervian da Silva, 7 anos, precisou entrar na linha para lutar contra o diagnóstico de obesidade infantil Foto: Débora Ertel/GES-Especial
Dieta virou uma palavra do dia a dia na casa da família Bervian da Silva. Foi depois de uma consulta com a pediatra Ceres Cechella que o sinal de alerta soou para a mãe e o pai de Rafael Bervian da Silva, com 7 anos completados na semana passada. O menino pesava 38,7 quilos, sendo nove deles adquiridos no último ano.

Mas o diagnóstico de obesidade infantil está longe de ser exclusividade dos moradores de Portão. "É notório que 80% dos pacientes que entram no meu consultório agora tem um peso diferente. É uma realidade não só das crianças, mas das famílias, pois o pai e a mãe estão nitidamente mais pesados", comenta Ceres.

A explicação para o peso extra na balança tem ligação com a pandemia, como conta a mãe de Rafael, a analista de testes Cristiane Becker Bervian, 35. Antes do coronavírus, ela, o esposo Júlio Moises da Silva, 37, e os filhos (o casal ainda tem o bebê Tales, de 1 ano e 8 meses) praticamente não paravam em casa. "Rafael fazia futebol e natação. A gente trabalhava fora, passeava quase todos os fins de semana e frequentava casas de amigos e praças", relata.

Com a chegada do coronavírus, tudo mudou e o isolamento passou a ser a rotina, como todo mundo em casa, sendo que Júlio e Cristiane passaram a exercer o home office. "Até agosto ficamos em isolamento total", pontua Cristiane.

Série de mudanças

Mauro Fisberg é pediatra, nutrólogo e membro do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). De acordo com ele, embora não existam evidências científicas por meio de estudo controlado, os casos individuais e os relatos de médicos têm demonstrado que houve um crescimento na obesidade infantil durante a pandemia.

Dados de pesquisas da China e Itália indicam que o aumento de peso no público infanto-juvenil está diretamente relacionado com o afastamento da escola. Porque mudou o padrão de alimentação. Também houve queda de renda familiar devido à crise econômica. E o isolamento acarretou em diminuição de atividade física.

Na avaliação de Fisberg, essa também é uma situação vivida pelas famílias brasileiras. "Com as crianças confinadas, elas ficaram mais sedentárias e o tempo de tela aumentou de uma maneira monstruosa", chama atenção.

A situação se agravou também porque os pais estavam ocupados trabalhando, ao mesmo tempo que os filhos ficaram entediados por não terem o que fazer. "Assim aumentou a alimentação hedônica, aquela que se come por prazer. Pois você precisar acalmar a criança de alguma forma e pouquíssimos pais conseguiram colocar uma rotina em casa", pontua Fisberg.

Má alimentação

O resultando foi que crianças e adolescentes acabaram comendo mal, alimentando-se daquilo que era mais acessível, como bolachas, pães e bolos, além de ingerirem os alimentos fora do horário.

Esse quadro tem sido motivo de preocupação em todo o planeta. Hoje, o Programa Mundial de Alimentos Centro de Excelência contra a fome estima que 42 milhões de crianças estão com sobrepeso no mundo, em uma proporção de uma a cada cinco crianças. No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que em 2025 o número de crianças obesas pode chegar a 75 milhões.

E quais são as consequências disso? A médica Ceres explica. "Costumo dizer que todo o gordinho na infância é um adulto sofredor", enfatiza. Isso porque dentre os problemas que o excesso de peso pode acarretar estão obesidade na vida adulta, hipertensão, diabetes e doenças cardíacas. Além de baixa autoestima.

Especialista aposta na vacina e no retorno da escola

Mauro Fisberg é pediatra e nutrólogo Foto: Reprodução
Fisberg aposta na vacinação e na volta à normalidade das escolas como ferramentas para ajudar as crianças a perderem peso e pararem de engordar.

O especialista salienta que o Brasil tem um dos melhores programas de alimentação escolar mundial, com papel social e nutricional. "Mesmo que com a volta da escola tenha maior chance de contaminação, não tem mais como tirar as crianças por mais tempo", ressalta.

De acordo com ele, nos colégios, as crianças tinham uma alimentação equilibrada, rotina e faziam atividade física. Falta que é sentida com mais intensidade pela população de baixa renda, que ficou ainda mais pobre durante a pandemia.

Conforme o médico da SBP, a obesidade traz uma série de problemas a curto, médio e longo prazo. "Podemos citar alterações respiratórias, infecções de pele, baixa autoestima e bullying", lista. Os mais graves são problemas cardiovasculares, diabetes e manutenção da obesidade na vida adulta.

Ele chama atenção que quanto mais próximo da puberdade, mais difícil e reverter o excesso de peso. "Mudar hábitos de crianças pequenas é fácil", faz o chamamento aos pais.

O especialista diz que é urgente as crianças voltarem aos consultórios dos pediatras e fazer o controle de puericultura, para acompanhar a curva de crescimento. "A segunda coisa é fazer atividade física. Coloquem as máscaras e busquem os espaços abertos para correr e brincar", faz o apelo.

O terceiro ponto fundamental é organizar as refeições e criar rotina alimentar. "Prevenir é mais fácil do que tratar, principalmente em uma criança pequena", finaliza.

Do diagnóstico de obesidade à mudança de hábitos

Rafael Bervian da Silva Foto: Débora Ertel/GES-Especial
Durante 2020, Rafael não teve consulta com a pediatra que o acompanha desde o nascimento. Foi uma opção dos pais para evitar o risco de contaminação por coronavírus.

Em 24 de março, o menino fez uma consulta on-line e uma semana depois foi para o consultório. "Eu desconfiava que ele tinha engordado, mas não imagina que era tanto", diz a mãe.

Depois da balança constatar os nove quilos a mais, a pediatra solicitou exames de rotina. Os resultados foram triglicerídeos e colesterol muito alterados, com alterações no fígado. "Quando eu vi aquilo eu pensei: deixei escapar a correia", conta Cristiane. De acordo com ela, Rafael sempre teve um peso superior à sua altura, mas nada que causasse preocupação.

Além disso, ele é uma criança que gosta de comer frutas e verduras. "Mas com os exames eu percebi que a gente descuidou", reconhece.

Desde então, o menino faz acompanhamento com nutricionista e já consultou gastroenterologista. A família mudou a rotina alimentar e Rafael passou a anunciar aos amigos e familiares que está de dieta.

Os exames também já melhoraram e ele parou de engordar. "Eu acho chato fazer (dieta), porque eu gosto de comer tudo", confessa o menino. Mas sob o comando dos pais, Rafael sabe que não pode ser mais assim para que tenha mais saúde.

Outro aspecto que mudou foi a atividade física, mesmo no confinamento. Rafael ganhou uma bicicleta nova para pedalar pelo bairro ou joga futebol com os pais no pátio. "Quando está calor eu vou para a piscina", lembra ele.

Educação alimentar vem de casa

Ceres Cechella, pediatra Foto: Arquivo pessoal
Com 26 anos de pediatria, a médica Ceres Cechella relata que nunca viu um volume de exames de rotina com resultados tão alterados como nestes últimos meses. "Tem sido assustador. Tornou-se comum ter exame com colesterol acima de 200, triglicerídeos altos e níveis de glicose no limite", comenta.

Ao apresentar este quadro aos pais e pacientes, Ceres costuma usar a seguinte frase: "A tia Ceres está tentando te ver com 40 anos". A partir disso, começa uma conversa para que a família entenda que é preciso mudar.

Segundo a pediatra, a educação alimentar deve fazer parte da base de desenvolvimento da criança. "Não foi a criança que foi ao supermercado comprar refrigerante. Os responsáveis são os pais", diz a pediatra, taxativa.

Segundo Ceres, o comportamento alimentar está atrelado ao quanto se somatiza às doenças e ultimamente as famílias estão ansiosas e amedrontadas.

Para ela, a volta às aulas vai auxiliar nas questões voltadas ao sedentarismo e falta de rotina. Mas a educação necessária para se alimentar de uma maneira saudável não se aprende na escola. "A família precisa desenvolver bons hábitos", ressalta.

Possíveis consequências na infância e na vida adulta

:: Doenças e complicações cardiovasculares, endócrinas, ortopédicas (musculoesqueléticas), dermatológicas e neurológicas
:: Obesidade na vida adulta, desenvolvimento precoce de hipertensão, diabetes tipo 2, doença hepática gordurosa não alcóolica (fígado), asma
:: Bullying, baixa autoestima, queda na frequência escolar, dificuldades com empregabilidade e salários na vida adulta
:: Excesso de custos em saúde por toda a vida
:: Baixa qualidade de vida

Fonte: Organização Mundial da Saúde

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Info Obesidade Infantil

Dicas da nutri

Sugestões de lanches saudáveis para crianças elaborados pela nutricionista Claudia Denicol Foto: orge Passos/Universidade Feevale
Com a pandemia, as crianças passaram a conviver em um ambiente obesogênico. Essa é a constatação da coordenadora do curso de Nutrição da Universidade Feevale, Claudia Denicol Winter. "É a oferta de alimentação com calorias vazias, com produtos industrializados e em muita quantidade", explica.

A profissional comenta que muitas das crianças que continuaram comendo o feijão com o arroz, refeição saudável, acabaram ganharam quilos a mais também porque a quantidade ofertada foi demais. "Com pais em casa trabalhando, elas ficaram expostas a alimentos mais acessíveis, brincado e comendo. Aí também houve aumento no consumo de embutidos, bolachas recheadas e salgadinhos, com menos frutas e verduras", descreve.

Conforme Cláudia, comer diante da tela é um problema a mais, pois o eletrônico emite luz, dispersa e estimula a comer mais. "As cores são quentes. Então é um conjunto de coisas que gera aumento de apetite e a ansiedade", pontua.

Como criar um novo ambiente alimentar em casa, mesmo com o home office e as crianças ainda sem voltar com as atividades normais da escola? "A dica é o planejamento das refeições", ensina a nutricionista.

De acordo com ela, por mais que os pais estejam trabalhando, eles continuam sendo os responsáveis pela alimentação dos filhos. "Aí não tem o que comer e acaba pedindo uma pizza ou comendo muito pão. É preciso se organizar antes", alerta.

Fazer uma lista de compras é o ponto inicial para virar o jogo na família e deixar opções de lanches prontos para a criança ter a mão. "Ter frutas picadas, iogurte natural e sanduíches sem maionese e catchup. Também fazer bolos mais saudáveis", orienta.

A profissional chama atenção para o consumo desenfreado de balas, que cresceu na pandemia. "Também não aconselho a dar gelatina, rica em corantes e açúcar", diz.

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