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Notícias | Região Crime organizado

Celulares e apoio na cadeia: como um preso comandava o tráfico em Dois Irmãos

O chefe da quadrilha e cinco companheiros de cela foram surpreendidos com cinco telefones na manhã desta quinta-feira na Penitenciária Modulada de Montenegro

Por Silvio Milani
Publicado em: 07.01.2021 às 21:02 Última atualização: 07.01.2021 às 21:54

Com cão farejador, agentes acordaram líder e cinco companheiros de cela na manhã desta quinta-feira Foto: Polícia Civil
Seis apenados da Penitenciária Modulada de Montenegro dormiam, às 6h40 desta quinta-feira (7), quando policiais civis entraram na cela para cumprir mandado de busca e apreensão. A operação surpreendeu os presos, acordados no susto, e também os agentes, que logo viram cinco telefones celulares espalhados pelo ambiente. Não havia a mínima preocupação de esconder os aparelhos.

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Os aparelhos serão periciados Foto: Polícia Civil

O líder da cela assumiu a posse. Condenado por latrocínio (roubo com morte), o criminoso de 31 anos é apontado como chefe do tráfico de entorpecentes em Dois Irmãos e Morro Reuter. O nome não é informado por causa da Lei de Abuso de Autoridade.

“Quando pedimos o mandado, em dezembro, tínhamos quase certeza de que teria celular. Para nossa surpresa, eram cinco”, declara o delegado de Dois Irmãos, Felipe Borba. O alvo da operação, segundo ele, era o detento “dono” dos telefones. “Ele já foi indiciado várias vezes, nos últimos anos, como cabeça do tráfico aqui na cidade. As investigações apontavam que, na prisão, ele mantinha o controle, com ordens de distribuição, logística e outras questões, como pagamentos.”

Reencontros

Os outros cinco na cela, conforme o delegado, são da mesma facção. “Dois foram presos pela DP de Dois Irmãos.” Ou seja, capturados nas ruas e reagrupados na cadeia, com acesso a meios de comunicação para manter os negócios do crime no mundo externo. “O sistema prisional é organizado para que presos do mesmo grupo fiquem juntos, a fim de evitar conflitos”, observa Borba. Ele frisa que investigação contra a quadrilha avança.

Entrada será apurada

Já a entrada de telefones no presídio será apurada pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). “A instituição deve instaurar procedimento para investigar se houve falha ou corrupção.” Borba destaca que o horário da operação foi combinado com a administração da penitenciária, para pegar os apenados e companheiros dormindo. “Foi uma estratégia para que os telefones não fossem destruídos ou jogados fora.”

Preso conversava em códigos

As ligações telefônicas entre o preso e os comandados passavam a ideia de um diretor de empresa amigo dos funcionários. “Nenhum conflito foi identificado. A coordenação era sutil e velada, com códigos e gírias, na tentativa de ocultar o tráfico.” Os telefonemas eram diários, de manhã até o fim da noite. O delegado revela que a organização tem pelo menos dez membros. “É o mínimo de envolvidos, desde o gerenciamento à venda nos pontos. Há locais identificados e pessoas presas recentemente nessa investigação, que prossegue.” As investigações apuraram que o grupo detém o negócio da maconha e cocaína. Drogas sintéticas são comercializadas em pequena escala. Venda de crack não foi constatada. “Quando a gente prende um, surge outro. O tráfico jamais vai acabar enquanto existir o usuário”, ressalta o delegado.

Apenado tem casa na cidade

A última entrada do chefe do tráfico no presídio foi em fevereiro de 2016, quando capturado como foragido. Ele morava em Dois Irmãos, onde tem casa. Além da condenação por latrocínio, está com diversas prisões preventivas decretadas por tráfico. Também tem antecedentes por assaltos, porte ilegal de arma e falsa identidade. Em razão do flagrante de ontem, conforme a administração da penitenciária, o detento ficará em isolamento por dez dias.

Apreensões podem levar a mais envolvidos

A perícia nos cinco celulares poderá revelar membros da quadrilha até então ocultos. “Vamos analisar todo conteúdo”, diz Borba. A operação, segundo ele, é uma forma qualificada de combater o tráfico. "Apenas com esse tipo de atuação policial é possível conhecer os detalhes do grupo criminoso, viabilizando a responsabilização além da que se costuma atribuir a quem é flagrado entregando droga a consumidores. Sem isso, quem financia, gerencia ou é beneficiado com a traficância dificilmente é descoberto."

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