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Notícias | Região Carnaval

Acadêmicos de pires na mão para voltar à passarela em 2020

Confirmada na lista de escolas que passarão pelo Porto Seco, depois de dois anos de afastamento, a Acadêmicos de Gravataí ainda tenta viabilizar o desfile

Por Eduardo Torres
Última atualização: 27.11.2019 às 09:00

Em 2016, a Acadêmicos chegou ao vice-campeonato do Carnaval de Porto Alegre Foto: Matheus Aguilar/Arquivo/GES
Se tudo der certo, por volta da 1h30min de 7 de março de 2020, o rugido da onça negra de Gravataí novamente será ouvido na passarela do Porto Seco, depois de dois anos longe dos holofotes. Mas, bem antes do grito de guerra e da pegada da bateria, será preciso gastar muita sola de sapato, não para sambar, mas para percorrer a cidade, de pires de na mão, para viabilizar o Carnaval da representante da cidade na festa popular da Região Metropolitana.

De acordo com o presidente da escola, Anderson Nascimento, a estimativa é de que, para cumprir o requisito básico do regulamento dos desfiles de 2020, de colocar dois carros alegóricos na avenida, fantasiar de maneira adequada às alas e dar o suporte necessário à bateria e aos destaques, serão necessários R$ 80 mil. Pouco menos de um terço dos R$ 300 mil dos melhores anos da Acadêmicos. E mesmo assim, a corrida contra o tempo em busca do recurso parece cada vez mais difícil.

"A escola tem muitas pe

ndências antigas. Não podemos receber recursos da prefeitura, por exemplo, e a nossa intenção desde que assumimos é mesmo buscarmos alternativas para caminhar com as próprias pernas, mas para isso, precisamos do apoio da comunidade. Nos próximos dias, estaremos na rua mostrando o trabalho que temos feito na recuperação da escola e na criação de projetos sociais para o futuro da entidade", explica o presidente.


Nesta programação de buscas de apoio, está a intenção de visitar os gabinetes dos vereadores da cidade, mostrando o projeto do Carnaval de 2020, que pretende levar o tema Kilombo para a avenida. A intenção é de que os vereadores possam, de alguma forma, apadrinhar a escola e abrir portas para apoiadores. Depois, a ideia é apresentar a viabilidade econômica dos desfiles do próximo carnaval ao comércio e empresas de Gravataí.

"Diferente de outros anos, desta vez serão permitidas algumas formas de marketing durante os desfiles, que terão transmissão pela televisão e pela internet. Nós somos os representantes da cidade, e temos uma história muito bonita no Carnaval de Porto Alegre para defender no Porto Seco", valoriza Anderson.

Acadêmicos do futuro na Amoval

A contrapartida, estima o presidente, não irá se restringir à avenida e ao dia do desfile. No próximo sábado, dia 30, iniciam as aulas das oficinas gratuitas no projeto chamado Acadêmicos do Futuro, que acontecerão na sede do DTG da Amoval, na Morada do Vale I. Serão aulas de artesanato, percussão e samba no pé. Todas abertas à comunidade.

Em Cachoeirinha, a cada 15 dias, também acontecem aulas de percussão gratuitas, na sede da Associação dos Moradores da Cohab.

"Nosso desafio é mostrarmos que esta entidade de quase 60 anos não vive só do Carnaval no período das festas. Temos uma comunidade que vive na escola e que pode contribuir muito para a cultura popular de Gravataí", aponta o presidente.

Dívida acumulada

O pires na mão meses antes deste próximo Carnaval não é exclusividade da Onça Negra. A estrutura do Porto Seco, por enquanto, em nada lembra os melhores anos da festa na Capital. A prefeitura de Porto Alegre há algumas semanas é que começou a capinar o local e, à exemplo de anos anteriores, não haverá nenhum gordo aporte financeiro público para as escolas.

"Eu acredito que a Acadêmicos de Gravataí é uma das escolas que mais está adiantada no planejamento do Carnaval. Já temos os protótipos das alegorias e fantasias bem delimitados. Nós saímos atrás, mesmo, é em relação ao espaço para nos prepararmos. Não temos quadra e, para cada ensaio, por exemplo, são pelo menos R$ 1 mil de custo", lamenta.

Acadêmicos não desfilou em 2019, mas fez diversos eventos na cidade e região Foto: Divulgação

A falta de estrutura faz parte do desafio que começou quando a escola decidiu não participar do Carnaval de 2019. A prioridade passou a ser arrumar a casa. Anderson, que assumiu a direção da escola em abril deste ano, já sabe que pelo menos até o Carnaval, isso não será possível.

A escola tem uma dívida entre R$ 20 mil e R$ 25 mil com a prefeitura, por irregularidades em prestações de contas antigas, o que acaba inviabilizando qualquer possibilidade de convênio da entidade com o poder público. Se as dívidas antigas somarem os fornecedores, aí o montante deve passar dos R$ 100 mil. E o que é pior, esta é uma herança que acaba fechando portas no momento de preparar um próximo desfile.

O plano inicial da escola era arrecadar o que era devido à prefeitura de Gravataí em eventos realizados ao longo do ano, mas foi insuficiente. Até setembro, o montante, estima o presidente, não havia chegado à metade do necessário. E este seria o prazo para que qualquer projeto pudesse ser analisado pelo município.

Para o samba não perder o tom

Mas quem disse que a impossibilidade deste apoio desanimou o Anderson? Ele assumiu a escola em abril, com um compromisso:

"Não vou deixar a Acadêmicos fechar as portas".

É que, se fora do Carnaval ele é um analista de produtos, de 30 anos, que trabalha na TDK. No Carnaval, ele carrega a Onça Negra no DNA.

"Meu avô, o Adalberto Nascimento, foi um dos fundadores da escola. Eu já frequentava a quadra desde antes de nascer e fui o único dos nove netos que, depois de adulto, segui cultivando esse amor pela escola. Em 2018, eu vi que a situação estava crítica, e acabaríamos não conseguindo nos reerguer. Desde então, estamos neste caminho de recuperação, com as próprias pernas, sem precisar do sustento pelo poder público. Ainda falta aquele empurrãozinho da iniciativa privada, mas estamos lutando para isso", resume o presidente.

E a briga para a recuperação começou mesmo dentro da comunidade carnavalesca. Depois de abrir mão da participação nos desfiles de 2019, a houve resistência na liga das escolas para que a Acadêmicos retornasse em 2020 com um lugar na elite, que ocupava até 2017 — e em 2016 chegou ao vice-campeonato. Depois de muita discussão, ficou definida a manutenção no Grupo Especial.

Pela programação definida, serão sete ou oito escolas a desfilarem. A Acadêmicos será a quinta, na madrugada de sexta para sábado.

Regulamento permitirá marketing nas escolas no Porto Seco Foto: Matheus Aguilar/Arquivo/GES

Como vem a Onça Negra

Enredo: a Acadêmicos vai levar para o Porto Seco o tema Kilombo, contando as histórias de resistência do povo negro desde a África, com o kilombo com "k", até os quilombos, com "q", no Brasil e em Gravataí, chegando às resistências modernas.

Comissão de Carnaval: Rafael Saraiva, Vagner Silveira e Ramon Gandez

Diretor de Carnaval: Jorge Faria, o Jorginho

Intérprete: Lu Astral

Mestre de Bateria: Mestre Ninho

Os desfiles do Carnaval de Porto Alegre em 2020 devem ser transmitidos pela Band e pela internet.

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