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Notícias | Especial Coronavírus Pandemia

Calendário resume os 21 dias que mudaram o nosso mundo; veja

Há duas semanas o coronavírus alterou nosso jeito de viver. Isolamento social é o remédio disponível no momento para contê-lo, mas há efeitos colaterais

Por Ermilo Drews
Última atualização: 01.04.2020 às 08:18

Oração na fila por vacinação Foto: Ermilo Drews/GES-Especial/ERMILO DREWS/GES-ESPECIAL
Em duas semanas a sua vida e a de boa parte dos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta deram uma reviravolta daquelas vistas em filme de Hollywood. O vírus que surgiu num mercado público da cidade de Wuhan, na China, em dezembro do ano passado, se espalhou como um tornado mundo afora. Depois da China ter que lidar com o inimigo invisível, o novo coronavírus bateu com força na Europa, onde caminhões do Exército são usados para transportar corpos, dado ao volume de mortos. Em seguida, a preocupação chegou aos Estados Unidos e na América Latina. No Brasil, o primeiro caso suspeito foi tornado público em 20 de fevereiro. Mas apenas na segunda quinzena de março os efeitos do coronavírus foram reais por aqui, mudando a forma como vivemos.

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Na semana que a Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu que o novo coronavírus se espalhou por diferentes continentes, em 11 de março, Novo Hamburgo sediava a Fimec, uma das mais importantes feiras do Estado. No final de semana anterior, quase 40 mil eleitores foram às urnas para eleger o prefeito de Parobé. Apesar do receio, a vida seguia normal. Mesmo com a declaração de pandemia pela OMS, atos a favor do governo Jair Bolsonaro foram mantidos no final de semana seguinte. O próprio presidente saiu às ruas para cumprimentar eleitores, contrariando a recomendação do Ministério da Saúde. As pessoas viajavam, iam a festas de aniversário, se abraçavam. Teve até futebol na televisão.

Mas a vida não podia seguir normalmente. Num mundo globalizado, o vírus e a informação se espalham mais rápido. Era impossível ignorar o número de casos se multiplicando a cada dia no Brasil e as centenas de mortes diárias na Itália. O começo da segunda quinzena de março representou a virada no discurso e nas atitudes complacentes da maioria dos gestores públicos. Com a ciência apontando o isolamento social como a melhor alternativa para reduzir a velocidade do vírus, evitando um colapso no sistema de saúde e mortes ao atacado, medidas para restringir a circulação de pessoas foram determinadas em efeito cascata. O isolamento é a melhor proteção ao vírus, mas provoca efeitos colaterais na economia.

Causa e efeito que reacenderam a dicotomia enraizada no Brasil desde as eleições de 2014. Depois de Dilma x Aécio. Impeachment ou golpe. Bolsonaro x Haddad. Saúde ou economia. Se em tempos de convívio social as redes sociais já funcionam como válvula de escape para devaneios pessoais, nos dias de distanciamento e apreensão quase todo brasileiro tem o que dizer. Principalmente o presidente Jair Bolsonaro. Em pronunciamento na televisão na noite de 24 de março, ele pediu o fim do confinamento em massa, chamando a doença que matou ao menos 40 mil pessoas no mundo de "gripezinha". Repetiu atos e termos do tipo diversas outras vezes. Discurso que contradiz seu próprio Ministério da Saúde em relação à pandemia.

Não se sabe quantas pessoas vão ser infectadas ou morrerão. Existem estimativas, cenários. De concreto, é que o isolamento se mostra a melhor forma de evitar o contágio de uma doença que não tem vacina e já infectou 853 mil pessoas pelo mundo. De concreto, famílias vão chorar e a economia vai sofrer. O nosso mundo não será o mesmo depois da segunda quinzena de março.

"Não se salva a economia com pessoas mortas"

Professora da Feevale, a socióloga Sueli Cabral pondera que as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde são baseadas em metodologias científicas e que a preservação da vida também fará bem à economia. "Estamos há dias em isolamento, não há um mês. Claro que para os mais vulneráveis, dez dias fazem muita diferença e o governo precisa pensar nisso. Só que não se salva a economia com pessoas mortas."

Conflito interno atrapalha no enfrentamento

Cientista político, o professor de Relações Internacionais de Jornalismo da Unisinos Bruno Lima Rocha critica o conflito dentro do governo nas últimas semanas. "O Ministério da Saúde segue as recomendações da OMS e o presidente faz de tudo para desconstruir a legitimidade do seu ministério", analisa. "Ainda que Bolsonaro seja o grande sabotador do isolamento social, o Brasil está conseguindo conter a pandemia. Conseguiria muito mais se o governo atuasse a favor."

Discurso para agradar parte do eleitorado

Professor de História do Brasil Contemporâneo na Feevale, o cientista político Rodrigo Perla pondera que nenhum governo é monolítico, no entanto, entende que a figura do presidente tem perdido a disputa com o ministro da Saúde, Henrique Mandetta (DEM). Ele acredita que os discursos e atitudes do presidente servem para agradar seu eleitorado mais fiel. "Joga para a torcida. Para os 20%, 25% que vão apoiá-lo independentemente do que diga ou faça."

O calendário do coronavírus

11 de março
No dia que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declara que o mundo vive uma pandemia do novo coronavírus, ou seja, epidemia que se espalhou por vários países ou continentes, a imprensa informa que o primeiro caso do Estado é de um morador de Campo Bom.

12 de março
O secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wanjgarten, tem coronavírus. Ele viajou com o presidente Jair Bolsonaro e comitiva de ministros para os Estados Unidos, onde se encontraram com Donald Trump. Governador Eduardo Leite emite primeiro decreto com medidas de restrição. Eventos começam a ser cancelados.

13 de março
Donald Trump decreta emergência nacional nos Estados Unidos e libera 50 bilhões de dólares para ações de controle da doença no país. No Brasil, Ministério da Saúde confirma transmissão comunitária do vírus em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, e recomenda medidas de isolamento social.

15 de março
Presidente Jair Bolsonaro ignora a recomendação de monitoramento dada por médicos depois de ter contato com paciente com o vírus e participa de atos de apoio ao seu governo e até aperta a mão de manifestantes. Moradores de cidades da região também realizam manifestações de apoio ao governo.

16 de março
As medidas de restrições se acentuam no País e na região, com o anúncio de suspensões de aulas, de jogos de futebol e proibição de eventos públicos. Novo Hamburgo publica decreto neste sentido. O medo do coronavírus provoca corrida aos supermercados e produtos como álcool gel começam a faltar. Governo federal anuncia pacote de R$ 147 bilhões para minimizar efeitos da pandemia na economia.

17 de março
Ministério da Saúde é notificado da primeira morte por coronavírus no Brasil. Vítima foi homem de 62 anos que tinha histórico de diabetes e hipertensão, que estava internado em hospital privado em São Paulo. Depois de minimizar a doença no final de semana, Bolsonaro surge ao lado de ministros usando máscara de proteção em entrevista coletiva. Em efeito cascata, cidades começam a decretar situação de emergência e acentuar medidas de restrições.

19 de março
Governador Eduardo Leite decreta calamidade pública no Estado e apresenta série de medidas ainda mais restritivas. Apenas atividades essenciais podem funcionar. Nesta altura, Rio Grande do Sul já tem 33 casos; Brasil, 625, com sete mortes; e o mundo mais de 230 mil casos com quase 10 mil mortes.

20 de março
Ministério da Saúde declara reconhecimento de transmissão comunitária do novo coronavírus em todo o território nacional. A declaração dá ao Ministério da Saúde autoridade diante de todos os gestores, que devem adotar medidas que promovam distanciamento social e evitem aglomerações. Em apenas um dia, 627 pessoas morrem na Itália.

22 de março
Com inúmeros decretos determinando fechamento de empresas e escolas, o final de semana foi de isolamento social no País e em cidades da região. Apesar disso, o número de mortes segue aumentando. No País já chega a 25. No mundo, mais de 14 mil mortos.

23 de março
Governo federal anuncia medidas como liberação de recursos e renegociação de dívidas para auxiliar Estados e municípios. Secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, estima que casos de Covid-19 sigam aumentando pelos próximos três meses.

24 de março
Olimpíada de Tóquio é adiada para 2021. Região reforça sua estrutura de saúde pública, com a criação de centros de triagem. Apesar do avanço da doença e da recomendação de autoridades médicas, presidente Jair Bolsonaro pede, em pronunciamento nacional, o fim do confinamento em massa da população.

25 de março
Rio Grande do Sul tem primeira morte. No País, 57 já morreram. No mundo, mais de 20 mil. Governadores contrariam posição pessoal de Bolsonaro e mantêm medidas de isolamento social.

26 de março
Preocupado com os efeitos da doença e do isolamento na economia, governo monta pacote de R$ 750 bilhões para reativar a economia. No mundo, já são mais de meio milhão de pessoas contaminadas pela doença e 23,6 mil mortes.

27 de março
Incentivados pela posição do presidente, brasileiros realizam carreatas pedindo o afrouxamento das medidas de isolamento e o retorno ao trabalho. Na região, atos acontecem em cidades como Novo Hamburgo, Parobé, São Leopoldo e Sapiranga.

29 de março
Prefeitura de Novo Hamburgo confirma que uma técnica em enfermagem é o primeiro caso de coronavírus na cidade. Ela está em isolamento domiciliar e passa bem.

30 de março
Luiz Alberto Anschau, 60 anos, de Ivoti, e Erica Scherer, 84, de Novo Hamburgo, são as duas primeiras vítimas fatais do coronavírus na região. Anschau tinha pressão alta e Erica diversas comorbidades pré-existentes. Apesar das mortes, algumas prefeituras flexibilizam medidas de isolamento.

31 de março
Região contabiliza duas mortes. No País, já são mais de 200 mortos e 5 mil infectados. No mundo, o número de mortes chega a 42 mil em mais de 853 mil casos.

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