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Gilson Luis da Cunha

Uh, uh, não tem respeito!

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 25112018)
25/11/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.gilsonluisdacunha.com.br

Reza a lenda que Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, certa vez reuniu seus companheiros de banda, e comentou: "Se o Weird Al está fazendo paródia da gente, é porque estamos no caminho certo, cavalheiros". Ele se referia a Weird Al Yankovic, um prolífico cantor, compositor e dublê de ator, famoso nos EUA por suas paródias de grandes sucessos das paradas e, também, por algumas composições originais. Uma de suas "vítimas" favoritas era Michael Jackson, ao qual parodiou em videoclipes meticulosamente zoados, tais como Eat it!,paródia de Beat it! ou Fat!, paródia de Bad!.

Mas a imaginação desvairada do músico que uniu o humor à melodia não se limitou a brincar com bandas e cantores de sucesso. Para a comédia Duro de Espiar, ele compôs uma canção no estilo daquelas usadas nos filmes de James Bond nos anos 60 e 70, mas com uma sequência de abertura que avacalha de vez com os filmes do agente secreto britânico.

Weird Al é provavelmente a subcelebridade estadunidense mais divertida ainda em atividade. Em 1999, seu clipe The Saga Begins tornou-se célebre ao resumir, de modo hilário, na letra de uma canção, o início das aventuras de Obi Wan Kenobi como um jovem padawan. O clipe, gravado "in loco", em Tatooine, permanece até hoje como uma das melhores homenagens de fãs a Star Wars. Como já dito por Homer Simpson: "Aquele que cansou de Weird Al, cansou da vida". Ainda que Hiponax de Éfeso (541 A.C.- 487 A.C.), um dos pais do humor ácido, preconizar que "a sátira deve ser mortal", hoje em dia, a verdadeira sátira se aproxima da homenagem, já que é impossível satirizar o que não se conhece e, ao se aprender sobre o objeto da sátira, de certo modo, nos tornamos mais próximos do objeto de nossa zoeira.

Claro, um pouco de pimenta dá um tom especial, como no caso de Ryan Reynolds e Deadpool, personagem que ele nasceu para interpretar. A sátira, contudo, é como alcaparras e superpoderes: deve ser usada com parcimônia, não exatamente pelos motivos que levariam Bem Parker a lembrar a seu famoso sobrinho que "com grande poderes vem grande responsabilidade", mas, porque, para fins humorísticos, é necessário que o público termine de rir de uma piada para que seja capaz de entender a próxima.

Mas até mesmo esse axioma pode ser refutado por grandes mestres, como Mel Brooks. Lembro até hoje da primeira vez que vi sua obra-prima, O Jovem Frankenstein. A cena da visita do monstro (Peter Boyle) ao eremita cego (Gene Hackman) me fez chorar de rir. Pior, me fez tossir. Tanto que eu precisei enxugar a lágrimas rapidamente para não perder a cena seguinte, na verdadeira metralhadora giratória de piadas que é o filme.

Os anos 80 revolucionaram o humor satírico, principalmente no cinema, onde Jim Abrahams e os irmãos David e Jerry Zucker reinaram supremos com suas comédias besteirol nas quais descontruíam clássicos do cinema americano. Nada escapava deles. O thriller de espionagem em Top Secret. A ficção científica em Apertem os Cintos o Piloto Sumiu parte II, e claro, o filme policial com a trilogia Corra que a Polícia Vem Aí.

Claro, bem antes disso, já em fins dos anos 60, o grupo inglês Monthy Python, com seu humor nonsense faria história, influenciando muita gente ao redor do mundo, como, por exemplo, o programa TV Pirata e o seriado Armação Ilimitada, ambos clássicos da TV brasileira dos anos 80.

É bem verdade que o uso de metalinguagem, ironia e inversão de expectativas, ou quebra total delas, não é universal. O que importa é que aquela forma de humor seja entendida pelo publico a que se destina. Por exemplo, a imensa maioria de nós brasileiros, entende tanto de basebol quanto de literatura hitita do período anterior às guerras com o Egito (what?!). Então, piadas muito específicas sobre esse esporte, dificilmente terão algum efeito no brasileiro médio (seja lá quem for essa abstração estatística). Mas a sátira é, por natureza, temática. Precisa de um gênero.

É assim com Groo, o Errante, personagem criado por Sergio Aragonés e claramente baseado em Conan, o Bárbaro. Nas HQs de Aragonés, a fantasia épica é meticulosamente desconstruída, através das aventuras do bárbaro capaz de vencer exércitos e pôr tudo a perder, no último segundo, devido a seu baixo QI e paixão por queijo derretido. Aragonés, célebre cartunista da MAD, também é responsável por pérolas como Aragonés Destrói a DC e Aragonés Massacra a Marvel, onde, junto com Mark Evanier (texto) as duas gigantes das HQs de super-heróis são deliciosamente zoadas pelo ilustrador mexicano e seu colega estadunidense, usando estratégias narrativas e recursos de tramas tipicamente encontrados nas revistas regulares dessas editoras. Ou seja, mesmo zoando, é zoação com conhecimento de causa, do tipo que faz a gente querer ler o original.

Evidente que sempre há quem não veja com bons olhos seus mitos serem baixados dos pedestais da cultura pop e, por alguns momentos que seja, transformados em objeto de riso. Contudo, muitas vezes, parte desses mesmos ícones a permissão para sátira. Dizem que Weird Al se reunia com Michael Jackson antes de planejar um novo clipe e que o eterno rei do pop deu muitas risadas assistindo premières particulares desses vídeos. Leslie Nielsen, ex-galã dos anos 50, se reinventou como um dos caras mais engraçados de todos os tempos ao longo dos anos 80 e 90.

E o que dizer de William Shatner, após Star Trek? Ele mergulhou tão a fundo nesse caminho que chegou a ser zoado/homenageado no livro Shatnerquake de Jeff Burk, inédito no Brasil, cuja dedicatória eu traduzo aqui:

“Caro William Shatner, essa obra é um tributo a você. Não uma tentativa de zombar, ridicularizá-lo ou diminuí-lo. Você é a quintessência do homem pós-moderno. Você fez uma carreira interpretando uma caricatura de si mesmo. A sua vida inteira se tornou uma elaborada performance artística. Quem pode dizer quando você está interpretando ou sendo apenas o louco Shatner? Eu não posso. Não há uma linha entre fantasia e realidade quando se trata de seu trabalho. Por isso, eu o saúdo. A vida real é tão chata. Mas, enquanto o resto de nós tenta uma fuga de nosso mundo normal de trabalho duro e tedioso, você escolheu uma abordagem diferente.Você refaz o mundo à sua imagem e semelhança. Você é um bem sucedido ator, escritor, cantor e um maluco super legal de se ter por perto. Eu aposto que, quando você anda pela rua, pessoas e veículos abrem caminho diante de você em honra à sua 'Shatnertástica' pessoa. Este é seu mundo. O resto de nós apenas vive nele. Então, esse livro é para você, senhor Shatner, um verdadeiro homem renascentista.

Com amor,

Jeff Burk.

PS: por favor, não me processe.”

Não se pode agradar todo mundo. Sempre haverá alguém ofendido, como Tutubarão, clássico personagem de Hanna & Barbera, com seu famoso bordão: "Uh, uh, não tem respeito".

Jeff Burk, contudo, lançou esse livro há nove anos. E, até onde sei, ainda não foi processado. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.


Diário de Cachoeirinha
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