Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Av. Dorival Cândido Luz de Oliveira, 6423 (parada 63) - Monte Belo - Gravataí - CEP: 94050-000
Fones: (51) 3489-4000

Central do Assinante: (51) 3600.3636
Central de Vendas: (51) 3591.2020
Whatsapp: (51) 99101.0318
PUBLICIDADE
Realidade em Campo Bom

Tratamento intensivo: a batalha silenciosa pela vida

Profissionais do Hospital Lauro Réus mostram que a UTI é lugar de conversar com o paciente crítico, levar cartazes e demonstrar amor
25/06/2018 11:54 25/06/2018 12:45

Eduardo Cruz/Eduardo Cruz/GES-Especial
Acompanhada da equipe da UTI do Hospital Lauro Réus, Maria Lídia, internada desde o dia 9 de abril, pode deixar o leito, passear no pátio e até ganhar uma flor
Parece tudo tranquilo, mas naquela ala silenciosa do hospital, há uma batalha pela vida. Uma não, várias, de gente de todas as idades. Enquanto por fora a visão é de alguém deitado, imóvel, por dentro seu organismo luta arduamente pela sobrevivência, na companhia de uma infinidade de aparelhos. Mas nem todos estão em uma bolha médica superprotegida, vale lembrar. E, volto a repetir, a Unidade de Tratamento (ou Terapia) Intensivo, a UTI, é um espaço dedicado à vida.

“A terapia intensiva tem realmente esse ‘fardo’ de ser um local onde ‘as pessoas vão para morrer’ e muitas famílias se surpreendem aqui. E nem todo paciente está sedado, só por algum motivo. O coma é uma sedação, é um conjunto de medicações que vão fazer este paciente ficar relaxado e sem dor porque normalmente ele vai sentir em função de todas as intervenções. É um tubo endotraqueal, é um acesso venoso central, são sondas de alimentação e de drenagem de urina, são artifícios para a terapia dele que podem levar à dor, então o médico avalia se ele será sedado ou não. Muitas vezes, o paciente que acordado fica agitado, não vai respirar direito, a pressão eleva e aí, por mais que a gente faça todo um tratamento, ele não vai ter o mesmo efeito em função desse quadro”, detalha a enfermeira do Hospital Lauro Réus, em Campo Bom, Roberta Backes.

  • Mariana Azevedo, psicóloga
    Foto: Eduardo Cruz/GES-Especial
  • Roberta Backes, enfermeira
    Foto: Eduardo Cruz/GES-Especial
  • Mariana Barbosa, fisioterapeuta
    Foto: Eduardo Cruz/GES-Especial


Cuidado intensivo

Roberta ainda explica que o tratamento intensivo nada mais é do que uma dedicação redobrada a um paciente em um quadro crítico. “Por um período, ele precisa de uma equipe multidisciplinar com uma vigilância maior, do aparato tecnológico da UTI para o tratamento daquela patologia, daquele quadro em que se encontra. O paciente está mais instável, chamamos de crítico, tanto na parte ventilatória quanto na parte hemodinâmica, pressão instável e a questão cardíaca que leva ao comprometimento de outros órgãos do sistema. O coração não está mais conseguindo fazer a circulação, então acaba tendo uma piora de quadro ventilatório e aí precisa do nosso auxílio”, diz.

Em média, no Lauro Réus, um paciente permanece internado na UTI entre sete e 10 dias. A unidade médica campo-bonense conta com 10 leitos de UTI, todos de atendimento dos adultos. A maioria do internados nesta ala são de Campo Bom, mas também há pacientes de outras cidades, encaminhados via Central de Regulação de Leitos de UTI.

Ele pode me ouvir?

Sim, sim, sim! Converse com seu familiar ou amigo sedado! “Tem estudos que dizem que o último sentido que a gente perde é a audição. A gente observa que os familiares ficam com medo, chegam na beira do leito e dão uma travada, assim nós sempre orientamos a tocar e conversar com o paciente. Por mais que ele não vai te responder, porque está com a sedação ou entubado, ele precisa ouvir. Uma das coisas que a gente consegue observar são os sinais vitais do paciente, a pressão eleva um pouquinho não pelo quadro dele, mas pela forma que tem de demonstrar para a família que ele está entendendo que eles estão ali presentes. Aqui a gente gosta muito de conversar com os pacientes, orientar, dizer que dia é hoje, que horário é, como está o tempo lá fora, o que vamos fazer, por mais que ele não nos responda, para tentar de alguma forma situar, porque quando ele acordar não vai saber onde está e muitas vezes nem se lembra como veio parar aqui, se prende no contexto daquela sua rotina”, cita Roberta.

No Lauro Réus, UTI vive nova realidade

Não é simplesmente uma ficha médica, é o “seu Gê”. E esqueça toda a aparelhagem, o que chama atenção no local é o cartaz escrito “vó, te amo!” Ouça a voz alegre da equipe que cuida de 10 pacientes, por mais que o diálogo seja respondido apenas com um batimento cardíaco diferenciado ou um piscar de olhos. Na UTI do Lauro Réus, a dedicação do time rendeu destaque estadual. A iniciativa “Mobilização precoce: os passeios ao ar livre como coadjuvante na recuperação dos pacientes da UTI do Lauro Réus” foi uma das escolhidas entre os cases apresentados no 8º Congresso Gaúcho de Terapia Intensiva, neste mês, em Gramado. E nada de termos técnicos para detalhar a ideia: a alegria da empregada doméstica aposentada Maria Lídia Marques Quadrado, de 60 anos, em sair do leito de UTI e passear no pátio do hospital e até colocar os pezinhos na grama já explica tudo.

“Apresentamos no congresso que a mobilização precoce é fácil, é segura, não tem custo e melhora a qualidade de vida do paciente e a interação com a equipe. No nosso caso, ainda temos a interação com a natureza, um momento único para eles. Imagina ficar enclausurado três meses e em alguns desses dias poder ir lá fora? Sentir o sol, o frio, pisar na graminha, ganhar uma flor, é muito bom”, se emociona a fisioterapeuta Mariana Barbosa.

“A literatura tem apresentado evidências que associam a mobilização precoce, fisioterapia passiva, ativa, sentar na beira do leito para controle de tronco e passeios externos, quando em condições hemodinâmicas, um componente primordial na reabilitação do paciente crítico. O grupo da nossa UTI tem sido pró-ativo em levar estas práticas aos pacientes com resultados surpreendentes, como pessoas com prognóstico desfavorável na chegada à UTI conseguirem ter alta para a enfermaria e depois para seus lares”, complementa a médica intensivista, Liliana Pellegrin.

Início do trabalho

As profissionais explicam que a ideia teve início a partir do atendimento a uma moradora de Novo Hamburgo, de 98 anos, internada por três meses e que no leito quase desistiu de lutar pela vida. Os exercícios orientados e os passeios ao ar livre motivaram a vovó a querer ficar boazinha para retornar para casa. “Dentro de duas semanas, ela retornou para Novo Hamburgo e um mês depois a gente foi visitá-la em casa, fomos recebidos por ela, muito contente de nos rever. Ali foi o grande start da satisfação, ver alguém que tava desistindo da vida, que não tinha uma perspectiva de melhora. Conseguimos fazer com que ela pensasse: ‘espera aí, eu posso mais’”, ressalta Roberta.

Motivação para ter alta

A psicóloga Mariana Azevedo reforça que o amor espalhado pelo local ajuda na recuperação do paciente. “Havia uma crença de que aqui dentro era muito esterilizado, claro, é, mas não quer dizer que você não possa trazer algo para seu familiar, dependendo do que for, a gente consegue adaptar. Fotos, por exemplo, a família confecciona um cartaz, a gente cola na parede, ele vai conseguir ver sua família e saber que não está sozinho. É uma motivação para ir pra casa, pra voltar a ter sua vida.”

Necessidade de se mover

São dias, meses, numa cama de hospital, mas nem por isso a ordem deixa de ser, conforme o quadro clínico, “se mexer”. “Entre os pacientes críticos, existe uma anomalia neuro-muscular que se chama fraqueza muscular adquirida. Com ela, aumenta o tempo de ventilação mecânica, de internação tanto na UTI quanto após, na internação hospitalar, diminui a função muscular desse paciente e piora a qualidade de vida dele. Então, na mobilização precoce, tiramos ele do leito, incentivamos a levantar peso, a pedalar, quando possível eles caminham e até tomam banho de chuveiro, o que não é comum”, explica Mariana Barbosa.


Diário de Cachoeirinha
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE