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Gilson Luis da Cunha

Khaaaaaaaaaaannnn!!!

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 10062018)
10/06/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.wattpad.com/search/Gilson%20Luis%20da%20cunha



Kirk

Na semana que passou, o grito acima completou 36 anos da primeira vez em que foi ouvido. Mais precisamente, no dia 4 de junho de 1982, Jornada nas Estrelas II, A Ira de Khan estreava nos cinemas americanos. Assim como Blade Runner, filme que também estreou na lendária temporada 1982-1983, A Ira de Khan foi um filme incompreendido quando de seu lançamento, mas os anos viriam a consagrá-lo, do mesmo modo que o filme de Ridley Scott (os filmes do verão americano, ou seja, do meio do ano no hemisfério norte, estreavam aqui no final do ano e no início do ano seguinte).

No Brasil, naqueles dias, praticamente não existia isso de "estreia nacional". Um filme podia levar vários meses, dependendo do humor da distribuidora, para sair do eixo Rio-São Paulo e ser exibido no resto do País. E assim foi com A Ira de Khan, que estreou em setembro no Rio ou São Paulo, mas que, por algum motivo, só chegou aos cinemas gaúchos em fevereiro de 1983. Eu lembro bem da espera pelo filme.

Em 1980, Jornada Nas Estrelas, O Filme, que é de 1979, chegara ao Brasil. Como fã da série clássica, o conceito de que as vidas dos membros da tripulação da Enterprise tinham tomado rumos diferentes me fascinou na hora. Kirk almirante, McCoy deixando a frota e virando médico do interior, Spock reformado e voltando a Vulcano para expurgar de vez suas emoções, a Enterprise remodelada e com um novo capitão, tudo isso, por si só, já me cativou.

A história de V’Ger, a inteligência alienígena que ruma à Terra e deixa um rastro de destruição em seu caminho, era só um adendo para mim. Infelizmente, não funcionava com todo mundo. Lembro de um crítico de uma popular revista semanal afirmar em sua coluna: "A Enterprise volta a voar, desta vez, rumo ao nada". Foram três anos de espera, até que as primeiras fotos do novo filme aparecessem na imprensa brasileira. Não havia Internet e nem a praga dos spoilers. Revistas em inglês eram caras, de difícil acesso, e meu inglês mal dava para um "the book is on the table".

Por tudo isso, vibrei com aquele verão, o mesmo em que os cinemas exibiam Blade Runner, A Guerra do Fogo, ET, Tron, e O Enigma de Outro Mundo. Lembro do título da crítica para A Ira de Khan: "Burocracia e vídeo game", segundo o articulista, era a isso que o filme se resumia, uma vez que trata de Kirk, quase cinquentão, sentindo a chegada da idade e se questionando sobre suas escolhas, no caso, ter aceito abandonar a cadeira de capitão em troca do almirantado.

Enquanto ele supervisiona uma viagem de treinamento da Enterprise, agora convertida em nave-escola para cadetes sob o comando de Spock, o passado volta a perturbá-lo. Seu antigo inimigo, Khan Noonien Singh (Ricardo Montalbán), escapa do planeta em que fora exilado, 15 anos antes, no episódio Semente do Espaço, da primeira temporada da série clássica. Para piorar as coisas, ele está em busca do dispositivo gênesis, um artefato capaz de criar vida em mundos estéreis, mas que, se lançado sobre mundos já habitados, varrerá qualquer forma de vida pré-existente. E esse dispositivo foi criado pela doutora Carol Marcus, antigo amor de Kirk e mãe de seu único filho.

Essa sequência do filme de 1979 foi pensada quase como um reboot, rompendo com o tom mais filosófico da aventura anterior e tentando capturar elementos icônicos da série de TV, como o vilão, um humano do século 20, dotado de força e intelecto superiores, produto de engenharia genética.

Apesar do filme tratar essencialmente do jogo de gato e rato entre Kirk e Khan, o conflito entre ambos não se resolve à base de “Kirk Fu”, a mistura de luta livre artes marciais que William Shatner tanto gostava de empregar com seu capitão Kirk. Os tempos eram outros. O Khan que foi exilado era um erudito, que citava Paraíso Perdido, de John Milton, como seu lema de insubmissão. O Khan que volta do exílio é um capitão Ahab e Kirk, como em Moby Dick, é o alvo de sua vingança, sua baleia branca, sua obsessão.

Em determinado ponto do filme, Khan consegue roubar o dispositivo gênesis e ainda tripudia Kirk, afirmando que o deixaria preso no interior de um asteroide, do mesmo modo que ele o deixara 15 anos antes. Supostamente vencido e odiado, Kirk solta o famoso berro de ódio (foto) que, por extrema licença poética, ecoa até no vácuo do espaço: Khaaaaaaaannnnnn!!! Claro que era pura dissimulação. Não há spoiler nenhum em dizer que, no final, Kirk vence Khan, que à beira da morte, repete o discurso de ódio de Ahab pela baleia que o aleijara.

A vitória vem, infelizmente, com um alto preço. Spock se sacrifica pela nave, ao entrar na sala do reator para consertá-lo e sofrer um envenenamento mortal por radiação. Sua despedida, enquanto agoniza, é ainda uma das mais comoventes de todo o cinema de ficção científica. A mesma cena foi refilmada, invertendo o ponto de vista em Star Trek, Além da Escuridão, com resultados embaraçosos. JJ Abrams achava que uma homenagem ao filme de 1982 seria o fan service que conquistaria os fãs antigos da franquia. O tiro saiu pela culatra e pode ter sido um dos fatores que o fez deixar a direção e seguir como produtor executivo, para alívio de muitos.

No final de A Ira... Kirk é confrontado pela primeira vez com sua própria mortalidade e com o abraço do filho com o qual nunca conviveu. Eu tinha 17 anos quando vi esse filme e saí do cinema chocado. Vi um de meus heróis de infância morrer. Para vocês mais jovens, peço que tentem imaginar como seria ir assistir Vingadores, Guerra Infinita, sem saber praticamente nada sobre o filme. Pois é. Essa é a sensação.

Ao longo dos anos, o filme viria a ser considerado o melhor exemplar da série clássica na telona, influenciando e sendo citado em diversos produtos da cultura pop. No cinema, sua maior influência está em X-Men 2. Na cena final, o diretor Bryan Singer, trekker de carteirinha, faz uma homenagem ao segundo filme da franquia de Star Trek. Assim como em A Ira de Khan, a câmera se afasta, mostrando a paisagem aérea de uma floresta e, então, uma narração em off de Jean Grey, reproduz a famosa frase do professor Xavier: “Mutação é a chave de nossa evolução”.

A semelhança com a cena final de A Ira de Khan é gritante: tanto Jean Grey quanto Spock se sacrificaram para salvar seus amigos e, agora citam as frases que definem os universos nos quais se passam suas histórias. No final de A Ira... ouvir “Essas são as viagens da nave estelar Enterprise...” pela primeira e última vez, na voz de Leonard Nimoy, enquanto a câmera desliza em profundidade pelo espaço, é um momento inesquecível, ainda mais, ao som da trilha sonora de James Horner o, então, jovem compositor que ganharia o Oscar pela trilha de Titanic.

O filme consegue reformular a franquia e, apesar do final trágico, conseguiria levar Jornada nas Estrelas (ou, como dizem hoje em dia, Star Trek) onde nenhuma série de ficção científica jamais esteve. O tempo fez justiça ao trabalho do diretor Nicholas Meyer. O filme tornou-se um clássico moderno. E o berro de William Shatner ainda convence mais do que o de Zachary Quinto, mesmo passados quase quarenta anos. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Diário de Cachoeirinha
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