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Gilson Luis da Cunha

Steven voltou para casa!

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 15042018)
15/04/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.wattpad.com/search/Gilson%20Luis%20da%20cunha


O Jogador

Alguns anos atrás, eu estava na fila para um painel da Comic Con Experience (CCXP), em São Paulo. Como ocorre neste evento, a fila, quilométrica e bastante lenta, gerava conversas, como um meio de vencer o tédio. Numa dessas conversas conheci um pessoal de São Leopoldo que foi em grupo para o evento. Em outra, duas irmãs gêmeas, de 23 anos, ambas engenheiras de software, estudantes de língua coreana (porque J-Pop é já coisa de velho. O lance agora é K-Pop) e, acima de tudo, apaixonadas pelos anos 80.

Bom, quem me conhece sabe que não sou um guri de 17 anos, mas, também, não sou Ramsés II. Conversa vai, conversa vem, elas me perguntaram: “O senhor assistiu De Volta Para O Futuro no cinema? ” Respondi que sim. “O Senhor viu o lançamento mundial do Álbum Thriller, de Michael Jackson? Voltei a dizer que sim. “O senhor viu O Clube dos Cinco no cinema?” Respondi que sim. Os olhos delas estavam enormes. Eu já estava ficando assustado. Então elas disseram: “Puxa, o senhor foi adolescente nos anos 80? Que época legal! Se nós pudéssemos escolher, queríamos ter vivido naquela época.”

Ambas se revelaram leitoras e fãs de Jogador Número 1, de Ernest Cline, cuja adaptação cinematográfica está em cartaz nos cinemas. Confesso que não li o livro. Mas escrevo essas linhas logo após o término da sessão em que vi o filme. E que filme! Não é o melhor, nem o pior filme de Steven Spielberg. Mas é o filme que, há muito tempo, ele devia aos fãs, e a si mesmo. A última vez em que me emocionei com algo dele foi em A.I Inteligência Artificial, 17 anos atrás. E isso é muito tempo, considerando o tipo de cineasta que ele era, até os anos 80.

Spielberg, antes de A Lista de Schindler, Amistad, Lincoln e outros filmes “adultos”, era um cineasta-fã, um geek como eu e você. Um cara que estava mais preocupado em agradar ao público do que à crítica. Filmes como A Cor Púrpura ou O Império do Sol, foram felizes acidentes nos quais a emoção que o público quer e a “sofisticação narrativa” que a crítica exige se encontraram para a alegria de gregos e troianos. O resto da estrada foi estranho. Tivemos um Parque dos Dinossauros que, apesar da grandiosidade, é uma trama pasteurizada para a galerinha da sessão da tarde. O resto é história.

Por essas e outras, eu estava com um pé atrás ao ir ver Jogador Número 1. O trailer, visualmente encantador, é legal. Mas qual trailer não é legal hoje em dia? (Liga da Justiça não vale!). O filme conta as aventuras de Wade Watts (Tye Sheridan), um jovem que vive em Columbus, Ohio, em 2044. Nessa época, o mundo é um lugar sujo e superpopuloso, fato que leva boa parte dos habitantes da Terra a viver o maior tempo possível no ciberespaço, num ambiente virtual conhecido como OASIS.

Nesse reino digital, onde qualquer fantasia é possível, Wade, sob a identidade de Parzifal, o avatar por ele criado, é um dos bilhões de usuários que garimpam o lugar à procura de itens de valor escondidos em uma infinita variedade de jogos. Apesar de se considerar um lobo solitário, Parzifal acaba fazendo amizade com Aech, um enorme guerreiro ciborgue que lembra um pouco o Kratos do game God of War, Sho e Daito, respectivamente um ninja e um samurai, que o ajudam em suas batalhas.

O criador do OASIS, o falecido James Donovan Halliday, antes de morrer, escondeu três eastereggs, três chaves, cuja posse dará ao vencedor dos desafios do jogo o controle da empresa e do mundo que ela mantém. Por isso, Wade e todos os outros jogadores passam boa parte de suas existências tentando encontrá-las. Infelizmente, esse também é o objetivo de Nolan Sorrento, CEO da IOI, uma corporação que, legalmente, escraviza pessoas que contraíram dívidas impossíveis de serem quitadas e as usa para montar um exército de jogadores, a fim de encontrar as chaves.

Num desses desafios, Wade/Parzifal conhece a misteriosa Art3Mis, uma jogadora disposta a tudo para encontrar as chaves, mas muito diferente de uma jogadora comum. E vou parando por aqui, pois de spoiler a Internet já está cheia. O filme vai agradar a gurizada gamer. Mas se você foi jovem nos anos 70 ou 80, esse filme é para você. É, certamente, o filme com maior número de eastereggs ocultos (ou não) por fotograma na história do cinema. Só de naves eu contei algumas dezenas. De personagens, então, perdi a conta. O veículo de Parzifal, é “apenas” o DeLorean de De Volta Para o Futuro. A moto de Art3mis é a mesma de Kaneda em AKIRA. E isso não dá 0.001% das surpresas do filme. Mas ver uma batalha campal ao som de Twisted Sister, não tem preço!

O filme traz uma crítica muito atual aos engravatados da indústria do entretenimento, que tratam os fãs, consumidores de seus produtos, como lixo. E não é para menos. Cada vez mais fica patente a ignorância de executivos sobre suas franquias, em incidentes desastrosos, como a condução do “Universo DC” nos cinemas ou as estúpidas decisões criativas da Paramount para Star Trek. É muito fácil se identificar com Parzifal e seus amigos, quer você tenha 10, 15, 30, 45 anos ou mais. Todo mundo que já amou um game, um filme, uma HQ, uma série, vai se ver representado em Jogador Número 1.

Esse filme foi uma jornada sentimental. Durante duas horas e dezenove minutos, voltei a ter 16 anos e, cá entre nós, acho que Steven Spielberg também. À certa altura, senti a idade batendo, quando fui o único no cinema a entender uma piada. Rir sozinho não é tão legal. Mas, no todo, foi de arrepiar os cabelos da nuca. O que eu vi na tela foi um pouco de minha vida e uma parte da vida de muita gente. Mais do que uma coleção de fatos, nomes, rostos e lugares, o que vi foi cultura viva, vibrante, atravessando os abismos do tempo e nos lembrando que, mesmo mortais, um pouco de nós viverá na cultura que passamos a nossos filhos, como tem sido, desde de eras imemoriais, quando o primeiro artista registrou, nas paredes de uma caverna, a cena de uma caçada bem-sucedida, ou como quando os primeiros versos do Épico de Gilgamesh foram escritos numa tabuleta de barro, na antiga Mesopotâmia.

Lembrando daquela conversa na fila da CCXP, chego a ficar constrangido. Eu jamais poderia saber, nos anos 80, como os anos 80 eram legais. Dizem que ninguém consegue realmente entender o espírito de sua própria época. Por isso, agradeço àquelas duas fãs, por me lembrarem de quem eu já fui um dia. Como sua imortal criação, ET - O Extraterrestre, Steven, finalmente, voltou para casa. De certo modo, eu também. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Diário de Cachoeirinha
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