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Cris Manfro

Guardar alguém dentro de você

''Quando pessoas em quem você confiou, dedicou amor, cuidado, tempo, investimento passam a perna em você e você, não tem como enterrar porque morreram somente simbolicamente dentro de você.''
21/01/2018 07:00



Cris Manfro é psicóloga clínica, terapeuta de família e casal e mediadora familiar /acmanfro@terra.com.br


Cada vez mais relembro os pensamentos da sabedoria da minha mãe. Conversava com ela certa vez a respeito de luto. Minha mãe costumava dizer que passaria por qualquer situação de perda, luto e dor, mas, que não abriria mão de viver certas coisas. Nem quando ela perdeu um filho este, com 31 anos de idade, ela mudou o seu pensamento. Dizia para mim que se alguém dissesse a ela que ela perderia um filho amado e que ela poderia ter a oportunidade de não tê-lo a fim de se poupar da dor que ela, não pensaria duas vezes e diria: “fico com a dor! Passo pela perda mas, não deixaria de tê-lo, nem que fosse por horas, meses, alguns poucos anos eu, não abriria a mão de tê-lo tido”. Completava dizendo que ela sabia que ele estava bem “guardado”. Sempre gostei muito da ideia dela de “guardar” a pessoa, nem que seja dentro de você.


Mas, um dia desses, eu fiquei pensando em como é difícil e sofrido quando você, não tem como “guardar” esse alguém. Quando pessoas morrem pra você, e você as perde, mas somente no sentido figurativo. Em situações que você não espera quando pessoas que você ama decepcionam, traem e magoam você. Quando pessoas em quem você confiou, dedicou amor, cuidado, tempo, investimento passam a perna em você e você, não tem como enterrar porque morreram somente simbolicamente dentro de você. Como lidar com mortos-vivos? Como cruzar com eles pela rua, no supermercado, nas redes sociais? E quando você os vê, simplesmente não os reconhece? É difícil acreditar que você tenha que enterrá-los.


São amigos, sócios e infelizmente às vezes pais e filhos que enganam e precisam ser enterrados dentro da pessoa. Pessoas que fazem mal, quando deviam proteger. Que causam dor e violência quando deveriam cuidar. Que “passam a perna”, roubam, maltratam, abandonam, negligenciam, renegam, excluem, oprimem e invalidam, como guardar? A maior dor talvez seja essa: não poder guardar a pessoa dentro de você. E não ter como enterrá-la e ter que conviver com um morto-vivo. Quando é um pai que tem que ser enterrado parece ser mais fácil por uma questão cultural, mas não é. Quando envolve uma mãe, é muito difícil, mães sempre são mais idealizadas. Não se espera que mães sejam algozes de seus filhos. E quando a pessoa a ter que ser enterrada dentro de você é um filho a dor é dilaceradora. Não se espera que um filho que deveria respeitar pai e mãe seja o vilão destes. Não se espera que pais não tenham autoridade para darem o prumo de bons valores e exemplos. Não se espera nunca a falta de gratidão. A dor da realidade de se ter que enterrar alguém que se ama dentro de si ao invés de “guardar a pessoa” é você ir ao chão e ser nocauteado. Feliz de quem pode guardar alguém dentro de si.


Diário de Cachoeirinha
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